Sem ter que ter… Cara de Brasil
10 de janeiro de 2005 por da Redação
**por Sandra Teschner
Tenho horror a estereótipos! A cara tantas vezes fake ou modulada de alguma coisa me dá a sensação de estagnação, de não deixar o tempo seguir seu curso e simplesmente passar, evoluir, acrescentar, agregar e por que não dizer, assumir?
Com nosso país não é diferente. Em que lugar vivemos? Façamos uma fotografia mental do que é o Brasil. Quantos papagaios, pessoas pulando carnaval e belas mulatas sambando, passeiam em seu consciente? Sim, pois no inconsciente o estereótipo até pode tomar carona, mas pense no que condiz com sua visão real.
Lembro-me alguns anos atrás de um bate papo interessantíssimo na faculdade Santa Marcelina onde discutíamos a transformação do artesanato brasileiro em business, ao que demos o nome de geração pós-fuxico. Nada contra a técnica artesanal que transforma retalhos em pequenas trouxinhas e cujo nome tem a origem na conversa das mulheres do interior do Nordeste que se reuniam para costurar e aproveitavam para fazer suas fofocas ou fuxicos…mas o rico artesanato brasileiro tem muito mais a oferecer, o Fábrica MorumbiFashion é um exemplo disso (não sabe do que se trata?? Corra e leia sobre o assunto na página 14). Roupas com criação de recém-formados estilistas unidos a técnicas artesanais (como os trabalhos na palha de bananeira de Itanhaem, Arame de Itobi, Tramas e fios de Pedra Bela, amarrio de Bariri, Nhandoti de Dois Córregos) resultando em belíssimas coleções que em breve encontrarão sua desova em um interessante ponto-de-venda. Não basta mostrar, tem que resultar.
Vemos no cenário internacional com alguma freqüência o desfile de alguns estilistas nossos, marcas tupiniquins sendo vendidas em lojas de renomes e muito auê em verde amarelo lá fora. Que o estrangeiro gosta da imagem fotográfica do Brasil (os tais estereótipos que citei acima) isso nós sabemos, mas isso nos ajuda a vender criação e produto nacional? Os números não são tão contagiantes como nosso way of life..
O Brasil está na moda, mas não necessariamente nossos produtos entraram de verdade nesta onda, o que significa que não vendemos na proporção de nossa fama e o que queremos senão realizar negócios reais? Eu estava em julho na Alemanha e pelos quatro cantos do país vestia-se camisetas setentinhas verde e amarelas (nenhuma produzida no Brasil) com saudações em pseudo-português (sim muitas delas simplesmente com escritas erradas). Vi sandálias-cópias que de tão ilegítimas chamavam-se mananas e vinham de algum lugar da Ásia. A rede H&M exibia o clima brasileiro com outdoors gigantes com algumas de nossas modelos usando a linha verão com estilo nosso, mas material, produção, tamanhos e provavelmente preço de agrado dos compradores da marca. Trocando em miúdos, era uma fartura de made in Greece, made in Vietnam, entre outros. De made in Brazil só mesmo o flair e só para isso, estamos mal pagos.
Vivi durante 12 anos fora do país, estudei na Alemanha, Espanha e Inglaterra e aprendi a dar uma olhada para o próprio umbigo oportunamente da platéia. Vendo desta forma, observo a peculiaridade de estarmos freqüentemente entre o estado de autoflagelação ou de convencimento absoluto, o que nos impede de, admitindo nossas fragilidades procurar superá-las, acrescentando o que temos de melhor, nosso jeito, nosso carisma, nossa alegria de viver. Aprender com a experiência e a história de outros povos, adiantar-nos comercialmente e estrategicamente, planejando o resultado que queremos alcançar, adicionando aqui uma boa pitada de charme, isso seria um tempero nacional que daria o tão desejado diferencial aos negócios.
Melhor do que ter cara de, é ser sucesso por inteiro.
(nota: agradeço ao simpático convite de Carlos Simões e Geni Rodio Ribeiro da ABIT (Associação Brasileira de Industria Ttêxtil) que numa conversa muito interessante junto a Raquel Valente da FASM me mostraram com a força de suas experiências no mercado da moda trocaram comigo preciosos conhecimentos!)
**Sandra Teschner
Publisher da revista profashional e especialista em moda e varejo.
e-mail: sandra@revistaprofashional.com.br
site: www.revistaprofashional.com



**Sandra Teschner
